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É destaque na Rádio Alepa FM o lançamento do livro "Filhos dessa Raça": dupla biografia de Hecilda Veiga e Paulo Fonteles Filho
Reportagem: Shirley Castilho- FRTPA - Comunicação
Edição: Angelina Anjos Cavalero- FRTPA - Comunicação

Uma entrevista marcada por emoção, densidade histórica e compromisso com a memória coletiva deu o tom da programação da Rádio Alepa FM 101.5. O jornalista e escritor investigativo Ismael Machado foi o convidado especial para falar sobre o lançamento de seu novo livro, “Filhos dessa Raça”, uma obra que mergulha nas cicatrizes da ditadura militar brasileira a partir de histórias profundamente enraizadas na realidade amazônica.
A conversa, conduzida pelos apresentadores Raphael Guimarães e Gabriel Oliveira destacou não apenas o processo de construção do livro, mas sobretudo a urgência de revisitar episódios históricos que ainda reverberam nos dias atuais — especialmente no Pará, onde, segundo o autor, os impactos da repressão foram ainda mais intensos.
Publicado pela Imprensa Oficial do Estado do Pará, o livro reconstrói as trajetórias de Hecilda Veiga e Paulo Fonteles Filho. A narrativa atravessa gerações ao contar a história de uma mulher presa e torturada grávida durante a ditadura e de seu filho, nascido no cárcere, que transformou esse legado em luta pela memória e pelos direitos humanos.

Segundo o autor, a ideia da obra surgiu a partir de uma provocação familiar. O projeto foi incentivado por Ronaldo Fonteles, irmão de Paulo, após a publicação de um livro anterior sobre o pai, Paulo Fonteles — advogado da Comissão Pastoral da Terra, deputado estadual constituinte, figura emblemática na defesa dos direitos humanos e vítima de assassinato em meio a conflitos agrários no estado. Ele lembrou ainda da sua aproximação com Paulinho Fonteles na época que era vereador.
Ao longo da entrevista, Ismael destacou que o maior desafio não foi a falta de informações, mas sim encontrar o equilíbrio entre a precisão histórica e o respeito à memória das pessoas retratadas.

Diferente de biografias investigativas tradicionais, Filhos dessa Raça se propõe como um “ensaio memorialístico”. A obra alterna capítulos entre mãe e filho, construindo uma narrativa que mistura militância política com aspectos íntimos e subjetivos — uma abordagem que busca humanizar personagens frequentemente reduzidos a estatísticas ou discursos ideológicos.
Um dos pontos mais fortes da entrevista foi a análise de Ismael sobre o impacto da ditadura na região amazônica. Para o autor, o Pará foi um dos epicentros mais profundos da violência do regime, especialmente por conta da política de ocupação territorial e incentivo ao grande capital.
Segundo ele, esse modelo colocou em choque três forças: grandes empresas, migrantes pobres e populações tradicionais — um cenário que deu origem a conflitos fundiários que persistem até hoje.
Casos como a Guerrilha do Araguaia e episódios mais recentes, como a Chacina de Pau D'Arco, são citados como exemplos de uma violência estrutural que atravessa décadas.
A força da memória como instrumento político
Ismael também fez uma crítica à forma como a história da ditadura é contada no Brasil, muitas vezes centrada em figuras do eixo Rio-São Paulo. Para ele, obras como a sua ajudam a reposicionar a Amazônia como protagonista desse período histórico. “A gente precisa contar nossas próprias histórias”, defendeu o autor, ao destacar que trajetórias como as de Hecilda e da família Fonteles possuem a mesma relevância — ou até maior — do que narrativas já consolidadas nacionalmente.
A publicação pela IOEPA foi apontada como fundamental para viabilizar o projeto. O autor elogiou o papel da editora pública na preservação da memória histórica do estado, especialmente ao resgatar obras fora de catálogo e incentivar produções com forte valor documental.
Ao abordar temas sensíveis como tortura e violência, Ismael reconhece que o livro pode causar desconforto, mas reforça: “não dá para dourar a pílula”. Para ele, encarar essas feridas é essencial para evitar que erros do passado se repitam.
Um livro necessário para o presente
Mais do que um resgate histórico, Filhos dessa Raça se apresenta como uma obra urgente. Ao conectar passado e presente, o livro evidencia que as disputas por terra, memória e justiça continuam moldando a realidade amazônica.
A entrevista na Rádio Alepa FM deixou claro: revisitar essas histórias não é apenas um exercício de memória — é um ato político.
Paulo Fonteles faleceu em 2017, aos 45 anos, consolidando-se como uma importante referência na defesa dos direitos humanos na Amazônia. Hoje, a trajetória dele e de sua mãe é resgatada em uma dupla biografia, fruto de seis anos de pesquisas, entrevistas e elaboração textual..jpeg)
veja a entrevista na íntegra agora:
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