Acessibilidade

  • Item
    ...
  • Item
    ...

Você está em: Portal Alepa / FRTPA / Violência que não deixa marcas visíveis também adoece: alerta a psicóloga Flavia Lemos em entrevista na Rádio Alepa FM 101.5

Notícia FRTPA

04/09/2026 | 12h08 - Atualizada em 04/09/2026 | 12h18

Violência que não deixa marcas visíveis também adoece: alerta a psicóloga Flavia Lemos em entrevista na Rádio Alepa FM 101.5

Reportagem: Shirley Castilho- FRTPA - Comunicação

Edição: Angelina Anjos Cavalero- FRTPA - Comunicação

A psicóloga e professora da UFPA, Flávia Lemos na Rádio Alepa FM  chama atenção para violência naturalizada no cotidiano.


Em entrevista à Rádio Alepa FM 101.5, a psicóloga e professora da UFPA, Flávia Lemos, chama atenção para violências naturalizadas no cotidiano e defende políticas públicas capazes de enfrentar as raízes sociais, econômicas, raciais e de gênero do adoecimento feminino.

Ela destaca que nem toda violência deixa hematomas. Algumas começam com uma palavra, uma humilhação, uma crítica constante ao corpo, à roupa, ao trabalho ou à capacidade de uma mulher. Também enfatizou que repetidas diariamente, essas agressões podem destruir a autoestima, comprometer a autonomia e produzir consequências profundas para a saúde mental.

Flávia é professora titular do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Pará (UFPA) e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq . Ela desenvolve estudos relacionados aos direitos humanos, subjetividade, violência de gênero e políticas públicas, com atenção aos impactos das violações de direitos sobre a saúde mental feminina.

Durante a entrevista, a pesquisadora lançou luz sobre uma das dimensões mais perversas da violência: aquela que se torna tão comum que deixa de ser reconhecida como violência.

Uma das constatações apresentadas por Flávia é que muitas mulheres submetidas sistematicamente à violência psicológica não percebem que estão sendo violentadas. Também disse que estudos demonstram que isso acontece em diferentes classes sociais, idades, níveis de escolaridade, territórios e contextos.

Uma das constatações apresentadas por Flávia é que muitas mulheres submetidas sistematicamente à violência psicológica não percebem que estão sendo violentadas. Também disse que estudos demonstram que isso acontece em diferentes classes sociais, idades, níveis de escolaridade, territórios e contextos.

A violência pode estar escondida em situações aparentemente banais: ser xingada pelo companheiro, ter sua profissão desqualificada, ouvir comentários depreciativos sobre o próprio corpo, cabelo, roupa ou aparência e até ser constantemente diminuída pela forma como executa tarefas domésticas.

Para demonstrar o quanto essas práticas estão naturalizadas, Flávia costuma perguntar às mulheres se já sofreram violência. Muitas inicialmente respondem que não. ‘’Quando a pergunta muda, a realidade aparece’’, explica.

Para Flávia, esse processo mostra por que a conscientização é parte fundamental do enfrentamento à violência de gênero: é impossível romper com uma violência que sequer foi reconhecida como violência. ‘’ Não é não, inclusive dentro do casamento’’, enfatizou.

Outro ponto contundente levantado pela psicóloga está relacionado ao direito da mulher sobre o próprio corpo.

Flávia chama atenção para uma concepção ainda profundamente naturalizada: a ideia de que casamento, namoro ou união estável dariam ao homem algum direito sobre o corpo da companheira.

A mulher continua tendo autonomia para decidir sobre seu corpo independentemente do tipo ou do tempo de relacionamento. “Ela pode dizer não para uma relação sexual que, se não for do desejo dela naquele momento, será um estupro.”

A pesquisadora observa que ainda existem homens que tratam o corpo feminino como propriedade simplesmente porque mantêm uma relação afetiva com aquela mulher.

“Não somos objetos. Nós não somos coisas. Nós não somos propriedade.” Disse Flávia

Para Flávia, essa concepção não surgiu por acaso. Ela é resultado de uma educação historicamente marcada pelo machismo, pelo patriarcado, pela misoginia e pelo sexismo.

Durante décadas, inclusive, a própria publicidade ajudou a reproduzir esse imaginário, apresentando mulheres como objetos ou “prêmios” destinados aos homens.

Romper esse ciclo significa compreender uma diferença fundamental: relacionamento não é propriedade. “Não somos objetos. Nós não somos coisas. Nós não somos propriedade.” As consequências dessa realidade ultrapassam o relacionamento abusivo e podem chegar aos serviços de saúde.

Flávia chama atenção para mulheres que passam anos convivendo com violência permanente e acabam desenvolvendo intenso sofrimento psíquico e diferentes quadros de adoecimento.

Em uma experiência acadêmica relatada durante a entrevista, uma profissional que atendia mulheres na rede de saúde começou a observar que muitas pacientes apresentavam históricos prolongados de violência de gênero. E os agressores, muitas vezes, estavam muito próximos: companheiros, pais, familiares, tios, padrinhos, vizinhos ou colegas de trabalho.

Ela falou ainda que as mulheres chegavam aos serviços utilizando psicofármacos e recebendo atendimento de psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e outros profissionais. Mas havia um problema fundamental: Tratava-se o sofrimento sem necessariamente identificar o que estava produzindo aquele sofrimento.

Segundo Flávia, a violência de gênero pode estar tão naturalizada que até profissionais deixam de relacionar determinados quadros de adoecimento às desigualdades e às violências vivenciadas pelas mulheres.

Saúde mental, para a pesquisadora, não pode ser pensada isoladamente das condições concretas de existência. Ela falou que a moradia, trabalho, alimentação, saneamento, educação, cultura, lazer e acesso a direitos também interferem diretamente no bem-estar psicológico. “Se eu não tenho direito à alimentação, direito à água, saneamento básico, se eu não tenho direito à educação, direito ao trabalho, direito à habitação, direito à cultura, ao lazer, ao esporte, eu não tenho saúde mental.”   

Flávia crava esse laudo sobre a mulher ao afirmar que o sofrimento de uma vítima submetida à violência, à pobreza, ao racismo, à insegurança alimentar ou à ausência de políticas públicas não pode ser compreendido apenas como uma questão individual.

A pesquisadora defendeu a importância da tramitação e aprovação de projetos voltados à autonomia feminina, ao enfrentamento das violências e à proteção da saúde mental.


Leis também podem proteger a saúde mental

Durante sua passagem pela Rádio Alepa FM, Flávia também destacou o papel do poder legislativo na construção de políticas de proteção às mulheres.

A pesquisadora defendeu a importância da tramitação e aprovação de projetos voltados à autonomia feminina, ao enfrentamento das violências e à proteção da saúde mental.

Representante da UFPA na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Pará, Flávia citou sua participação no grupo de trabalho de Saúde Mental e Direitos Humanos e ressaltou a importância da construção coletiva envolvendo parlamento, universidades, profissionais, instituições e movimentos sociais.

Para ela, legislar sobre proteção, autonomia e direitos significa também construir condições para uma sociedade mentalmente mais saudável. “Essa ação política coletiva é fundamental para que haja promoção da saúde mental coletiva de mulheres no Pará, na Amazônia paraense.”


Principais Projetos e Leis Recentes da Alepa

Custeio de tornozeleira eletrônica: O PL nº 341/2026 obriga agressores de mulheres a pagarem pelos custos de monitoramento por tornozeleira eletrônica usada como medida cautelar.

Cirurgias reparadoras prioritárias: A Alepa aprovou medida que garante prioridade na rede estadual de saúde para cirurgias reparadoras em mulheres vítimas de agressão com danos físicos ou estéticos.
 
Violência vicária: O PL nº 458/2024 institui diretrizes de conscientização contra a violência vicária, quando o agressor usa terceiros (como os filhos) para infligir sofrimento à mulher.

Política "Mulher Recomeçar Pará": O PL nº 495/2026 prioriza a qualificação profissional de mulheres em situação de violência doméstica sob medida protetiva.




Mulheres diferentes, realidades que
podem mudar o cenário da violência doméstica


“Não há como a gente pensar apenas um enfrentamento individualizado, com atendimentos privados, com atendimentos fragmentados, segmentados.”, disse Flávia

A defesa, segundo Flávia, precisa envolver toda a rede psicossocial e as diferentes políticas públicas, articuladas em torno da promoção, garantia e defesa dos direitos das mulheres.

Há ainda outro elemento indispensável nessa discussão: nem todas as mulheres enfrentam as mesmas condições de vulnerabilidade.

Raça, classe social, território, idade, escolaridade e gênero se cruzam e podem ampliar desigualdades e violências.


Flávia defende, por isso, políticas públicas capazes de enxergar essas diferenças.

Mulheres negras, indígenas, quilombolas e ribeirinhas.

Flávia defende, por isso, políticas públicas capazes de enxergar essas diferenças.

Mulheres negras, indígenas, quilombolas e ribeirinhas, por exemplo, possuem realidades específicas que precisam ser consideradas pelo Estado.“Nenhum tipo de violação de direito, nenhum tipo de violência acontece sem essa trama de fatores interrelacionados.” É o princípio da interseccionalidade: compreender que diferentes desigualdades podem atuar simultaneamente sobre a vida da mesma mulher.


A reflexão apresentada por Flávia Lemos na Rádio Alepa FM revela que o enfrentamento à violência contra a mulher começa muito antes da agressão física.

Ela explica que começa quando uma humilhação deixa de ser chamada de “brincadeira”. Quando controlar deixa de ser confundido com cuidar. Quando ciúme deixa de ser tratado como demonstração de amor. Quando casamento deixa de ser entendido como posse. Quando o sofrimento psicológico de uma mulher passa a ser investigado também a partir das violências e desigualdades que atravessaram sua história.

E, principalmente, quando a sociedade entende que combater a violência contra as mulheres não é responsabilidade apenas da vítima. É responsabilidade da família, da escola, dos profissionais de saúde, das universidades, das instituições, dos homens, das mulheres e do poder público.

E a professora concluiu que uma sociedade que naturaliza a violência também naturaliza o adoecimento que ela produz. E romper esse silêncio pode ser o primeiro passo para salvar não apenas a saúde mental, mas a vida de muitas mulheres.

Dados: A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher do DataSenado apontou que 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar em 2025.

Cerca de 29 milhões de mulheres foram vítimas de algum tipo de abuso em um período de 12 meses, mas grande parte só identifica a situação ao receber exemplos específicos de violência

 

 

 

As informações contidas nesta seção são de responsabilidade da FRTPA.